Está a arrendar casa e paga uma renda elevada e questiona-se se conseguiria suportar a prestação de uma casa sua?

A sua pergunta faz sentido.
Mas comparar apenas a renda da casa com a prestação do banco pode levar a uma decisão errada.

A resposta começa por saber quanto pode financiar, quanto precisa de ter disponível para comprar e quanto lhe custará viver naquela casa todos os meses.

A renda da casa chega para pagar uma prestação?

Imagine que paga 900 € de renda e encontra uma casa por 200 000 €.

Por exemplo, se pedir um empréstimo de 180 000 € a 35 anos, com uma taxa anual hipotética de 3%, a prestação inicial rondará 693 € por mês.

À primeira vista, parece haver uma diferença confortável. Mas a conta continua:

Despesa mensalValor ilustrativo
Prestação do crédito 693 €
Seguros70 €
Condomínio 35 €
IMI, convertido em valor mensal25 €
Reserva para manutenção e reparações 60 €
Total estimado883 €

Assim, neste exemplo, o custo mensal fica próximo da renda.
Isso pode justificar estudar a compra, mas não prova que esta pessoa consiga comprar aquela casa. Os valores dos seguros, do condomínio e do IMI dependem do imóvel e das condições contratadas. A prestação também pode mudar, conforme o tipo de taxa escolhido.

Contudo, há ainda o dinheiro necessário no início. No exemplo, o financiamento de 180 000 € pressupõe 20 000 € de capitais próprios para completar o preço. Acrescem despesas de compra e de crédito, que devem ser calculadas antes de assumir qualquer compromisso. No dia da escritura também tem de pagar as despesas notariais, emolumentos e o registo que vai depender do valor do negócio e neste caso conte com mais uns 600€.

E se a casa ficar mais longe?

Uma casa com uma prestação mais baixa pode custar mais à família no fim do mês.

Se a compra obrigar a mudar de zona, faça a conta aos transportes, passe, combustível, portagens ou estacionamento. Veja também quanto tempo passará nas deslocações para o trabalho e para a escola. Em alguns casos, uma casa mais afastada exige outro automóvel ou altera a organização dos cuidados às crianças.

Por isso, vale a pena comparar o orçamento completo e a vida que terá em cada localização, não apenas o preço dos imóveis.

Faça uma análise de crédito antes de escolher casa

Antes de começar as visitas, procure saber que valor pode pedir emprestado e que prestação consegue suportar com margem para as restantes despesas. O banco avaliará, entre outros fatores, os seus rendimentos, despesas, outros créditos e capacidade para pagar o empréstimo.
Uma simulação ajuda a orientar a procura; não é uma aprovação do crédito. 

Um intermediário de crédito autorizado pode ajudar a reunir a informação financeira e a comparar propostas dos bancos com que trabalha. Peça que lhe expliquem, além da prestação, o spread, o tipo e o prazo da taxa, os seguros, os produtos associados, a TAEG e o custo total do empréstimo. Um spread mais baixo, por si só, não garante a proposta mais barata. 

Confirme também as condições e a remuneração do intermediário. Os intermediários vinculados são remunerados pelos bancos com que têm contrato e não podem cobrar ao consumidor pela intermediação; as condições de um intermediário não vinculado são diferentes. 

Tem até 35 anos? Verifique dois apoios diferentes

Na compra da primeira habitação própria e permanente, os jovens até aos 35 anos podem, se cumprirem os requisitos, beneficiar de isenção de IMT e de imposto do selo sobre a aquisição. O benefício fiscal deve ser confirmado para o imóvel e os compradores concretos. Portal das Finanças

Existe também a garantia pública para determinados créditos à primeira habitação própria e permanente. O regime pode permitir financiamento até 100% do valor considerado para a transação, em compras até 450 000 €, para contratos celebrados até 31 de dezembro de 2026. Todos os compradores e mutuários têm de cumprir os requisitos. Mesmo quando são elegíveis, o banco pode recusar o crédito após analisar a sua situação financeira. A garantia também não elimina todas as despesas da compra nem a obrigação de pagar o empréstimo. Banco de Portugal

São medidas distintas: uma pode reduzir impostos na aquisição; a outra pode reduzir a necessidade de capitais próprios para o preço da casa. Vale a pena verificar ambas, sem contar com elas antes de confirmar a elegibilidade.

Então, quando faz sentido começar a procurar?

Quando já sabe quanto lhe custa hoje viver onde vive, que prestação e encargos conseguiria suportar sem apertar demasiado o orçamento e que dinheiro teria de usar na compra. Mesmo que ainda não esteja pronto para avançar, essa análise dá-lhe um ponto de partida realista.

Comprar casa traz estabilidade para muitas pessoas, mas também responsabilidades: manutenção, encargos regulares e um compromisso financeiro longo. A decisão deve caber na sua vida, e não apenas numa simulação.

Se hoje está a arrendar casa e gostaria de perceber se a compra é possível, posso ajudá-lo a definir os critérios de procura, avaliar as zonas e os imóveis e articular o processo com um intermediário de crédito autorizado. Como comprador, esse acompanhamento imobiliário não tem, em regra, um custo direto acrescido para si; confirmaremos sempre as condições aplicáveis ao imóvel antes de avançar.

Clarisse Macedo 4U
Clareza. Rigor. Confiança.
clarissemacedo.com⁠

NB: Este artigo foi escrito em 2026 e a respetiva lei em vigor. A legislação e condições alteram no tempo pelo que devem ser confirmadas as condições à dar.

Os valores apresentados no exemplo são meramente ilustrativos e não representam uma proposta de crédito.

Pode ainda ler: https://clarissemacedo.com/10-razoes-pelas-quais-necessita-de-um-consulto-imobiliario/


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